Outra represa


Fui mijar na cerca. Abaixo a cueca, um samba-canção azul-escuro com desenhos de bandeiras piratas, e começo a botar três litros de refrigerante pra fora, debaixo da lua cheia. O vento da represa uiva no meu ouvido, e sinto o cheiro dos hambúrgueres. 
Joelho direito ralado. Sempre esteve, eu acho, desde a primeira vez que cai de bicicleta. Ele cicatrizava há tempo de eu ralar de novo, por qualquer outro motivo. 

Na varanda, as coisas continuam como costumavam ser. Caio engordurando a camiseta do uniforme na churrasqueira, Almir lendo um mangá em que garotas têm pintos, Bob afinando o violão, e o Rodolfo saindo da cozinha com uma garrafa de Itubaína debaixo dos braços magrelos. Estamos na Chácara do Almir, ou melhor, do pai do Almir, o tio Zézinho, pra onde a gente vêm nas férias desde o primeiro ano. Chamamos ela de a Chácara no Fim do Universo, mesmo ela ficando em Ibiúna, que é só metade do caminho. Contávamos histórias de terror. Caio contou a do verão da lata, e alguns de nós contamos a nebulosa lenda do massacre de Macaré (Em 88 os militares estavam atrás de um artefato de valor nacional e histórico inestimáveis, que eles perderam num assalto. Sem qualquer relação com isso, em outubro, a inteligência brasileira descobriu que a união dos estudantes estava escondida na fazenda Macaré, na estrada da Cachoeira, pro trigésimo congresso clandestino da UNE. Quando os PMs da cidade e de Sorocaba chegaram lá, debaixo de uma chuva torrencial, pensando que seriam uns trezentos, quatrocentos maconheiros, descobriram que eram mais de mil, armados até os dentes. A merda bateu no ventilador quando as trombas d'água caíram do céu. Chumbo, sangue e lama, tudo por causa dos pãezinhos dos quais os moradores sentiram falta nas vendas e mercadinhos. Não tivessem acabado os pães, não tivessem os moradores avisado a polícia, o artefato, que acabou ali por uma desconhecida sequência de roubos, ou só por acaso, ele não teria se perdido para sempre). 

Ontem o Rodolfo cortou o pé num caco de vidro que estava enterrado no raso da prainha. Fizemos um curativo, mas a febre não baixava, então fomos pra cidade, que fica há uns quarenta minutos da chácara. O posto de saúde estava lotado, e na tv passava O Dia Depois de Amanhã. Saímos quando tava começando a Sessão Corujão. Acordei com o freio de mão sendo puxado pelo Bob. O farol se apagou e o pequeno pedaço de mundo a nossa volta, que consistia no gramado entre a garagem e a piscina, sumiu.

Subimos as escadas pra varanda. Fui o último a deitar. O quarto da esquerda era nosso por tradição. Eu, Rods e Caio o intitulamos O Quartinho do Compromisso. Noutro quarto o Almir roncava mamutemente. Fechei os olhos, e percebi que a luz da cozinha tinha sido esquecida acesa. A cozinha, que divide o ambiente com a sala, tem janelas de correr que dão pro gramado e pra piscina lá embaixo, e pra horta do tio, pra baixo além da piscina, onde já começa o horizonte. Tinha também a suíte dos fundos, entre os dois quartos, e dois banheiros: um no corredor pra suíte, e outro na garagem, que servia de depósito e barracão. 

Foi por isso que estranhei quando percebi um cômodo novo na casa. Um cômodo que eu nunca vi antes. Num canto da sala, atrás da cômoda onde fica a tv de tubo e o playstation 2. Uma porta levava pra dentro dele, que não poderia existir. Toquei a maçaneta - destrancada.

Os acordes iniciais de Aqualung entraram no momento em que a abri, revelando um lugar de pedra, tijolos vermelhos, néon, blocos maiores de pedra, dutos de ventilação, vigas de madeira e papel de parede de mal gosto aqui e ali. A luz negra era meio azul, meio amarela, e a fumaça de cigarro grudava no meu pijama - o samba canção e uma regata branca encardida. 
Eita porra. Fechei, abri de novo, continuava lá, então voltei, dessa vez com uma bermuda e uma jaqueta de couro.


Passando as máquinas de fliperama, cheguei onde desaguavam vários túneis arqueados. Nesse ponto parecia o esgoto em que o Bon Jovi toca no clipe de It's My Life, só que do tamanho do salão de festas do meu prédio. Três caras espremidos num palco tocavam algo entre jazz e rap pra uma dúzia de pessoas balançando a cabeça com garrafas na mão. Peguei um túnel que deu num beco sem saída equipado de pias e mictórios. Voltei pro salão. Outro túnel, com pequenas galerias com mobílias para se sentar à e sobre, e pessoas interagindo por entre elas. Salão de novo, túnel com pichações rosas e roxas. Por mais críptico, labiríntico e não-euclidiano que possa ser um lugar reconhecido, um garoto sempre vai saber reconhecer um banheiro feminino quando acidentalmente entra nele. Último túnel, palavras em línguas incompreensíveis pintadas com tinta fosforescente de todas as cores, galerias circulares com mesas, bancos e sofás, e no fim dele um balcão de bar. 

Senta ai garoto. Jossuen! Shake de ovomaltino, e um de nutella.

Ouvir algo tão familiar quanto seu idioma em um esgoto estranho dentro de um cômodo novo é como respirar depois de muito tempo prendendo a respiração.

Vou te dar um spoiler, de 2013. No segundo período da faculdade você vai fazer uma matéria de filosofia com um professor chato pra caralho que vai te passar com D. Um dos poucos textos pro teste final que você vai realmente ler é um conto em que o cara de repente encontra ele mesmo no passado.

Taças de vidro com canudinhos listrados foram botadas no balcão pela bartender - esse nome ainda existe? - de biquíni e casaco de pele. O maluco de black e moletom estendeu o milkshake de ovomaltine pra mim. Pera. "OvomaltinE". "Ovomaltino, a...".

a pão com mortandela". "Boladão de amor". O Monty Python brasileiro.

Acho que ele lembrou o que eu tava pensando.

Cara, eu posso falar o nome da garota de quem a gente gostava na primeira, na quarta, quinta, sexta, sétima e oitava série, as que você queria pegar no ensino médio, e a última garota de quem você vai gostar. Eu posso falar sobre aquela madrugada que começou num WAR e terminou na Missa do Galo...

OOOK, certo, você é eu, e eu sou você. Que lugar é esse?

Ele tirou a toca, olhou em volta, puxou o cardápio.

Um pub londrino em Amsterdã, provavelmente. Ou em Londres mesmo. Como ta o seu?
Ótimo. 
É, porque você ainda não provou o de negresco que vão lançar no BK, nem o de paçoca. Ei, vai uma batatinha ai?
Opa.
Senhorita! Uma porção de fritas, por favor. Os poloneses fazem as melhores batatas-fritas. Nesse sentido, espero que estejamos na Polônia.
Você não sabe como veio parar aqui.
Foi uma noite realmente muito louca.


Ei, já viu Sucker Punch? Aham, no começo do ano. Nós, o Almir e o Rods, no Extra Anchieta, muito foda. Na verdade a gente tava jogando rpg no Léo semana passada e... ah, antes que eu me esqueça, você tem algum dinheiro ai? O que? Eu? É po, acho que perdi minha carteira. Não, eu tava indo dormir. Você não se lembra de nada disso? Como um sonho distante. Só o suficiente pra não ser só coincidência, mas não o bastante pra parecer verdade. Sabe do que eu to falando?

Eu sabia. The Dark Side of The Moon, dizia a lenda. Tinha que ser o vinil, não podia ser o CD. E o filme precisava ser o VHS. Ah, é mais arrepiante quando você faz com seus amigos, na calada da noite, e de preferência numa chácara no interior, como nós fizemos ano passado. Deixe o disco preparado, coloque a tv no mudo, dê play. Quando o leão rugir pela terceira vez, toque o disco. Dali em diante o álbum do prisma sincronizaria assustadoramente com as cenas e a história de O Mágico de Oz. Não o bastante pra que você possa dizer "os caras do Pink Floyd fizeram isso de propósito, e tão com muito tempo livre mesmo". Apenas o suficiente pra que você diga "não pode ser coincidência". Como um sonho que era real antes de você acordar. Agora, acordado, muitos anos depois daquela noite, já não sei dizer se o encontro com o outro foi real ou ficção, nem pra que lado cada um de nós foi quando concordamos em sair correndo sem pagar a conta sem fim, mas o que eu posso dizer é que rir comigo mesmo de coisas e de um tempo que eu jamais sonharia em lembrar, foi foda.

SANGUE E SAL

Psico-história afropunk
André de Jesus

Joelhos ralados de quem começou a andar de patins no final de semana. Mesmo sem jeito era melhor se apressar porque a fila do mercado vai ta longa, e ainda tinha que botar tudo no congelador, e esse tudo precisava gelar até as sete, quando mais ou menos iam chegar. Meninos salgado, meninas doce, e ela as bebidas, como no colégio. O interfone tocou, eles subiram. A quitinete nunca esteve tão cheia. Mai, Juca, Fred e Mônica, que trouxe a Aninha, de seis anos. Google, como abrir uma garrafa sem saca-rolhas? Ninguém vestia mais sapatos, o armário não tinha cabides. Felizmente, sobravam parafusos, da mesa de centro de madeira reciclada que jamais seria montada. Colocaram um LP do Arctic pra tocar. Beberam, beliscaram queijos comprados pela internet. Abriu seu presente: um mimeografo. Deixaram a mesa arrumada, e as 11:49 desligaram o forno e desceram, só pra ver os fogos. Turistas de chinelos, camisetas brancas e oculozinhos de plástico com dois zeros no lugar das lentes, tal qual suas versões holográficas projetadas por smartglasses, embora igualmente bregas. Tentou se lembrar da última vez que viu um arrastão e não conseguiu, o que devia ser algo bom. Sentaram numa mesinha de ferro debaixo das palmeiras entre a areia e o calçadão. A noite era quente, o vento, fresco e salgado. Tirou uma foto pro Twitter. Merda, acabou o 3g. Foi no quiosque pedir a senha do wi-fi, e uma água de coco, por favor. O garoto no balcão tentou dar ideia, ela mostrou a aliança. Porque ainda andava com aquilo? Quando voltou, viu uma revistinha sobre a mesa. "Dragão 2000". Qual é Fred, achou num sebo? Nem, tão relançando. Isso não é nada, disse o Juca, vocês viram a Playboy? Eles vendem revistas em branco, você imprime a edição que quiser em casa. Fred tirou do bolso um dadinho vermelho de vinte lados e botou sobre a revista aberta. Esse não, esse é aquele lá, de sempre. Por um instante do tamanho de uma respiração, os substantivos a sua volta pareceram indistinguíveis daqueles que formavam as frases do seu universo na adolescência. Quis saber quando foi que perdeu o fôlego, e se, mergulhando bem fundo, poderia encontrá-lo de novo. 10, 9, 8, vai ser como se você não tivesse tido eu, mamãe? Ai Aninha, para de besteira, toma o seu suco. 3, Mai, você botou silicone?, 1...

Aconteceu por causa de duas coisas. Primeira, a estagnação secular. Depois que a segunda guerra acabou - e a guerra fria, e a guerra ao terror, e a guerra depois dessas, os supercomputadores, inventados e reinventados unicamente para quebrar mensagens secretas, não estavam mais ocupados com isso, e assim, foram empregados em outras tarefas. Uma delas foi analisar quintilhões de dados dodecaédricos acerca da sociedade, a história e etc., e o resultado, apresentado com a mesma facilidade e indiferença com que uma torradeira apresenta pão torrado, foi de que nós, espécie e civilização, deveríamos atingir em breve algo similar ao que alguns economistas da depressão dos anos trinta chamaram de "estagnação secular". Esse conceito, a princípio, se referia a um possível futuro após a era de ouro do capitalismo desprovido de crescimento econômico, fadado a desabar sobre sua própria fundação. Esse fenômeno vinha, sim, acontecendo (Augustus Gloop se sacia mais rápido do que o Willy Wonka é capaz de inventar novos bens de chocolates). Essa não é nem de longe a pior parte. Além das pessoas tomarem menos coca-cola diet que há dez anos atrás, essas mesmas pessoas estão fazendo menos bebês; e quando nós, tomadores de vanilla coke, batermos as botas, também vamos deixar menos crianças pra tomarem weed coke, e assim por diante, mas só até o resfriamento da produção material e da reprodução sexual fazerem com o homo sapiens o mesmo que o aquecimento global fez com as abelhas.

Essa é a primeira coisa. A segunda é a filosofia africana do tempo. Essa filosofia, como tantas outras, sobreviveu nos terreiros, como quando a avó dela dizia "Candomblé não tem hora, começa quando estiver pronto". Os convidados iam chegando, num horário que é mais ou menos igual. Podiam esperar horas sentados. Não adiantava reclamar, porque algum velho, provavelmente sua avó, repetiria de prontidão "candomblé não tem hora, minha criança". Nunca fez sentido pra ela, porque nasceu e cresceu em um mundo incolor, terraplanado à imagem e semelhança da racionalidade maximizadora do lucro. Não conheceu a lógica baseada na emoção, intuição e natureza segundo a qual o tempo continuava sendo uma eterna repetição de tudo, ciclicamente, como na época dos ancestrais, muito antes de palavras brancas como "futuro" serem inventadas e marcadas com ferro em brasa sobre nossas mães. Nos arrancaram de seus braços queimados, sem saber, porém, que dentro do coração está enterrado, escondido, um punhado de terra desse lugar antigo em que éramos Reis e Rainhas, e fazíamos quanto tempo quiséssemos. 

Sentada num McCafé, basicamente pelo wi-fi, ela pensou "é isso". "Vai ser como se cada tripulante e passageiro à bordo do Titanic, tendo o inaufragável navio vencido o iceberg, tivesse colocado a mão no bolso ou olhado para a parede e percebido, com espanto, que os relógios estavam todos congelados". Fenômeno semelhante se sucedeu com os militares, engenheiros e engravatados que estavam no Pentágono durante os poucos minutos necessários para neutralizar completamente o ataque cibernético aos Estados Unidos da América, no último vinte e seis de fevereiro. No entanto, ao olharem, eventualmente, cada qual para o seu respectivo Rolex, não puderam deixar de notar que os pequenos algarismos do calendário marcavam a data de 02/26/1885. What the fuck? Os demais centros de inteligência do primeiro mundo, igualmente convencidos de sua impenetrabilidade, receberam o mesmo recado. Ao fim das incontáveis e intermináveis conferências das Nações Unidas, uma segunda versão do vírus foi oficialmente disseminada por todos os satélites em órbita, transmitidos via internet, telefone e am-fm. O Tratado conferia a ONU o poder deliberativo-representativo de determinar os anos vindouros, conforme a agenda mundial de decrescimento anti-estagnação. 1989, 1970... com sorte, em pouco mais de uma década poderiam replicar os anos 50 e o baby-boom de natalidade, e, em duas, uma nova era de ouro. A contraparte do acordo, assinada por um hacker intangivelmente anônimo, reservava para si o conhecimento e a autoria do inexplicável código atrasador universal. Seja como for, códigos e linguagens são suficientemente a mesma coisa, e ninguém além dela conseguiu traduzir aquela língua morta que não estava escrita em lugar nenhum.

Pularam sete ondas, os seis. Riram de fazer xixi na calça. Quando uma onda um pouco maior deu um caldo nela ela não perdeu o fôlego; respirou fundo. No fim do feriado o sistema estaria atualizado, apropriando-se mecanicamente de cada segundo, cada gota de sangue e suor que não produzia e não lhe pertencia. Amanhã, enquanto as sobras estivessem esquentando no microondas, e o pessoal ouvindo fitas k7 do Spotify em walkman's com o emblema colorido da maçã, e talvez jogando Banco Imobiliário nos colchões e sacos de dormir na sala, ela estaria na rede, desenhando, esperando o joelho cicatrizar.

Praia Grande,
Primeiro de janeiro de 2001.

as vacas do Oriente

Uma improvável reação química no refrigerante
por André J. R. Torres.

  O relógio bate doze vezes, indicando que seu programa favorito já vai começar. Você apaga as luzes, ajusta o aparelho de televisão e se posiciona logo diante da tela, sentado no tapete. Não demora muito para surgir uma porta de madeira. Atrás dela está um homem de meia idade bem trajado com o cabelo penteado, o Apresentador, e ele o conduz para sua próxima história.

de tinta e aritmética

Quatro Casas Decimais
por André J. Torres

Chovia sobre os pés de Isaac. Chovia por toda Céu Azul. Óleo ordinário estalava na panela sobre o fogareiro. Fuligem escapava para a atmosfera estéril. Isaac vestiu o macacão cinza e bebeu seu café sem gosto. Devia ser quarta, devia chover por toda a Céu Azul. Passava das nove, por certo. Gotejava. Sacou o relógio de bolso e constatou que de fato passava das nove. Deu mais um gole, ralo, frio, e sem gosto. Outro e mais outro. Chovia, o espaguete estalava e bombas foguete se incendiavam do outro lado do Pacífico. No porto da frente fizeram soar o apito. Olhou o mar pela persiana. Couraçados flutuantes cruzavam o oceano turvo em sacrilégio de diesel e gás à santíssima trindade da física newtoniana, desafiando as leis da inércia e gravitação numa gigante blasfêmia de aço voador. 
Serviu-se do macarrão. Chovia. 

o submarino espacial

Dezoito Libras Redondas
André de J. Torres

As palavras finais de Leonard Snicket não soaram como planejara. Ao contrário, produziram efeito inversamente oposto a suas expectativas. Talvez um súbito erro de crase, ou quem sabe um trágico desvio de pontuação. É fato apenas que no dia Azul Escuro do ano Abóbora, precisamente as quatorze horas do século Constantinopla, o submarino espacial ao comando do Capitão Leonard Snicket desapareceu misteriosamente nas profundezas inexploradas da galáxia oriental. Na Terra nem o mais míope dos cartógrafos encontrou nos históricos da telemetria qualquer pista que apontasse o paradeiro da SS Horse W. No N., suspensa estática no vácuo silencioso do outro lado da Criação.

antropologia hipotética

Uma História sobre os Grampeadores
André J. Torres

Imagine então que em algum universo por ai, por uma incrível ironia do destino, a humanidade convencional não desenvolveu os grampeadores. Pois bem. A mecânica quântica muito diverge sobre o desvio padrão dos almoxarifados e suas possíveis implicações exponenciais na história clássica da civilização. Contudo uma vertente budista da antropologia hipotética presume estatisticamente que a falta de grampos no decorrer dos séculos desencadearia, por fim, a completa destruição da democracia, do cristianismo e dos escritórios de advocacia, condenando o Império Galáctico a uma idade das trevas de anarquia e barbárie por quatrocentas gerações, além de duas a quinze guerras termonucleares. 
Demais pesquisas prosseguem em andamento.
E o que aprendemos com tudo isso? Absolutamente nada. Boa noite.

atômico factal

A Chácara no Fim do Universo
Minhas Férias com os Caras

Anoitece no fim do universo. Em volta do fogo estão os seis escaramuçadores, teóricos escafandricos, banhados nos deflectos lunares da segunda-feira. O dedilhar das cordas evoca a canção, despertando os espíritos espaciais da grama molhada. Cores invisíveis dançam sobre a fogueira. Anoitece. Ao longe o inominável espreita, atômico factal, silencioso por de trás das cercas, condenado a vagar até o fim da eternidade.
As últimas folhas de papel desaparecem nas labaredas. Os bandeiras se levantam em direção a cabana no topo da escada. Hambúrgueres? Pensavam. Miojo e pipocas.
Amanhã jantamos hambúrgueres.

A criatura virou de costas e retomou sua caminhada pela estrada noturna. Calculou uma inequação ou duas e deixou de existir. O miojo cozinhava na panela. Anoitecia.

a seleção artificial

Uma História sobre os Mosquitos
André J. Torres

Era uma noite quente de primavera, e como qualquer noite quente de primavera os mosquitos conspiravam em mistério.
"MALDIÇÃO! Por que diabos existem os mosquitos?!”, dizia Johnny Boy.
"Está bem, pequeno. Vou contar-lhe uma história sobre os mosquitos", respondeu Uncle Darwin com um pigarreio e uma xícara de chá.

"Há muito tempo atrás havia dois tipos de mosquitos: Os que existiam, e os que não existiam. E assim, como reza a Seleção Natural... – Os olhos de Uncle Darwin pareceram brilhar por um instante ou dois. Continuou – Os mosquitos que existiam eram, naturalmente, melhor adaptados ao ambiente, e portanto se reproduziram e tão logo perpetuaram os genes da existência pelo planeta. Fim”.
“E é por isso, Johnny Boy, que não somos picados por mosquitos que não existem". O velho naturalista apagou as velas e deixou o quarto.

"Eu odeio você, Uncle Darwin", concluiu Johnny Boy em pensamento.
“Eu desejo que você queime no inferno”.

Mais tarde naquela noite o pequeno Johnny teve pesadelos Lamarckistas.