quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Fake Tales of São Bernardo

Puxo as persianas, arrasto a porta de vidro e saio. Ta sol, mas não ta quente. A varanda dos fundos da casa do Caio dá direto pro deserto, sem cerca, sem muro, nem portão, só a colina mesmo. Cruzando ela chego na praça cortada pela trilha que leva da rua da feira até uma travessa da Kennedy. No sétimo ano tive que fazer um trabalho sobre "pós-fordismo", que acabou sendo uma cartolina azul-mendigo com fotos imprimidas de Detroit e parágrafos gigantes com letra pequena. Sexta, na última aula de geografia do ensino médio, teve apresentação de um trabalho com o mesmo tema, só que as fotos no cartaz eram daqui mesmo. É que de 90 pra cá, principalmente depois que as montadoras fecharam as portas, quarenta porcento das pessoas foi embora, e a mesma região da onde saiam 9 de 10 carros dirigidos no país, em 2011 é isso ai que eu falei: um deserto.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Se vacas malhadas dão doce de leite

Estamos nessa época do ano em que anoitece cedo e amanhece tarde que eu nunca entendi direito. Só eu e o velho Scooby, por três dessas longas noites. Garotas não são permitidas.

Botas afundando nas folhas secas. Estômago dá uma roncada inominável. É, o cheiro do assado deve estar animal. Acho que já enchi o saco dessa porra.

Ponto infinitesimal no canto do olho. Alavanca pra baixo desliza sobre o trilho até bater no final, solta, puxa a correia e estala. Ou pelo menos são esses os sons, que dão a sintaxe de engatilhada. Espera... Pulso, tambores, tambor. Respira, silêncio, assovia. Fecha o olho direito, prende a respiração... e puxo.

Revoada de pássaros.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Outra represa


Fui mijar na cerca. Abaixo a cueca, um samba-canção azul-escuro com desenhos de bandeiras piratas, e começo a botar três litros de refrigerante pra fora, debaixo da lua cheia. O vento da represa uiva no meu ouvido, e sinto o cheiro dos hambúrgueres. 
Joelho direito ralado. Sempre esteve, eu acho, desde a primeira vez que cai de bicicleta. Ele cicatrizava há tempo de eu ralar de novo, por qualquer outro motivo. 

Na varanda, as coisas continuam como costumavam ser. Caio engordurando a camiseta do uniforme na churrasqueira, Almir lendo um mangá em que garotas têm pintos, Bob afinando o violão, e o Rodolfo saindo da cozinha com uma garrafa de Itubaína debaixo dos braços magrelos. Estamos na Chácara do Almir, ou melhor, do pai do Almir, o tio Zézinho, pra onde a gente vêm nas férias desde o primeiro ano. Chamamos ela de a Chácara no Fim do Universo, mesmo ela ficando em Ibiúna, que é só metade do caminho. Contávamos histórias de terror. Caio contou a do verão da lata, e alguns de nós contamos a nebulosa lenda do massacre de Macaré (Em 88 os militares estavam atrás de um artefato de valor nacional e histórico inestimáveis, que eles perderam num assalto. Sem qualquer relação com isso, em outubro, a inteligência brasileira descobriu que a união dos estudantes estava escondida na fazenda Macaré, na estrada da Cachoeira, pro trigésimo congresso clandestino da UNE. Quando os PMs da cidade e de Sorocaba chegaram lá, debaixo de uma chuva torrencial, pensando que seriam uns trezentos, quatrocentos maconheiros, descobriram que eram mais de mil, armados até os dentes. A merda bateu no ventilador quando as trombas d'água caíram do céu. Chumbo, sangue e lama, tudo por causa dos pãezinhos dos quais os moradores sentiram falta nas vendas e mercadinhos. Não tivessem acabado os pães, não tivessem os moradores avisado a polícia, o artefato, que acabou ali por uma desconhecida sequência de roubos, ou só por acaso, ele não teria se perdido para sempre). 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

2001 2

Sangue e Sal
André de Jesus

Joelhos ralados de quem começou a andar de patins no final de semana. Mesmo sem jeito era melhor se apressar porque a fila do mercado vai ta longa, e ainda tinha que botar tudo no congelador, e esse tudo precisava gelar até as sete, quando mais ou menos iam chegar. Meninos salgado, meninas doce, e ela as bebidas, como no colégio. O interfone tocou, eles subiram. A quitinete nunca esteve tão cheia. Mai, Juca, Fred e Mônica, que trouxe a Aninha, de seis anos. Google, como abrir uma garrafa sem saca-rolhas? Ninguém vestia mais sapatos, o armário não tinha cabides. Felizmente, sobravam parafusos, da mesa de centro de madeira reciclada que jamais seria montada. Colocaram um LP do Arctic pra tocar. Beberam, beliscaram queijos comprados pela internet. Abriu seu presente: um mimeografo. Deixaram a mesa arrumada, e as 11:49 desligaram o forno e desceram, só pra ver os fogos. Turistas de chinelos, camisetas brancas e oculozinhos de plástico com dois zeros no lugar das lentes, tal qual suas versões holográficas projetadas por smartglasses, embora igualmente bregas. Tentou se lembrar da última vez que viu um arrastão e não conseguiu, o que devia ser algo bom. Sentaram numa mesinha de ferro debaixo das palmeiras entre a areia e o calçadão. A noite era quente, o vento, fresco e salgado. Tirou uma foto pro Twitter. Merda, acabou o 3g. Foi no quiosque pedir a senha do wi-fi, e uma água de coco, por favor. O garoto no balcão tentou dar ideia, ela mostrou a aliança. Porque ainda andava com aquilo? Quando voltou, viu uma revistinha sobre a mesa. "Dragão 2000". Qual é Fred, achou num sebo? Nem, tão relançando. Isso não é nada, disse o Juca, vocês viram a Playboy? Eles vendem revistas em branco, você imprime a edição que quiser em casa. Fred tirou do bolso um dadinho vermelho de vinte lados e botou sobre a revista aberta. Esse não, esse é aquele lá, de sempre. Por um instante do tamanho de uma respiração, os substantivos a sua volta pareceram indistinguíveis daqueles que formavam as frases do seu universo na adolescência. Quis saber quando foi que perdeu o fôlego, e se, mergulhando bem fundo, poderia encontrá-lo de novo. 10, 9, 8, vai ser como se você não tivesse tido eu, mamãe? Ai Aninha, para de besteira, toma o seu suco. 3, Mai, você botou silicone?, 1...

sábado, 30 de novembro de 2013

as vacas do Oriente

Uma improvável reação química no refrigerante
por André J. R. Torres.

  O relógio bate doze vezes, indicando que seu programa favorito já vai começar. Você apaga as luzes, ajusta o aparelho de televisão e se posiciona logo diante da tela, sentado no tapete. Não demora muito para surgir uma porta de madeira. Atrás dela está um homem de meia idade bem trajado com o cabelo penteado, o Apresentador, e ele o conduz para sua próxima história.

domingo, 10 de março de 2013

de tinta e aritmética

Quatro Casas Decimais
por André J. Torres

Chovia sobre os pés de Isaac. Chovia por toda Céu Azul. Óleo ordinário estalava na panela sobre o fogareiro. Fuligem escapava para a atmosfera estéril. Isaac vestiu o macacão cinza e bebeu seu café sem gosto. Devia ser quarta, devia chover por toda a Céu Azul. Passava das nove, por certo. Gotejava. Sacou o relógio de bolso e constatou que de fato passava das nove. Deu mais um gole, ralo, frio, e sem gosto. Outro e mais outro. Chovia, o espaguete estalava e bombas foguete se incendiavam do outro lado do Pacífico. No porto da frente fizeram soar o apito. Olhou o mar pela persiana. Couraçados flutuantes cruzavam o oceano turvo em sacrilégio de diesel e gás à santíssima trindade da física newtoniana, desafiando as leis da inércia e gravitação numa gigante blasfêmia de aço voador. 
Serviu-se do macarrão. Chovia. 

sábado, 9 de fevereiro de 2013

o submarino espacial

Dezoito Libras Redondas
André de J. Torres

As palavras finais de Leonard Snicket não soaram como planejara. Ao contrário, produziram efeito inversamente oposto a suas expectativas. Talvez um súbito erro de crase, ou quem sabe um trágico desvio de pontuação. É fato apenas que no dia Azul Escuro do ano Abóbora, precisamente as quatorze horas do século Constantinopla, o submarino espacial ao comando do Capitão Leonard Snicket desapareceu misteriosamente nas profundezas inexploradas da galáxia oriental. Na Terra nem o mais míope dos cartógrafos encontrou nos históricos da telemetria qualquer pista que apontasse o paradeiro da SS Horse W. No N., suspensa estática no vácuo silencioso do outro lado da Criação.

antropologia hipotética

Uma História sobre os Grampeadores
André J. Torres

Imagine então que em algum universo por ai, por uma incrível ironia do destino, a humanidade convencional não desenvolveu os grampeadores. Pois bem. A mecânica quântica muito diverge sobre o desvio padrão dos almoxarifados e suas possíveis implicações exponenciais na história clássica da civilização. Contudo uma vertente budista da antropologia hipotética presume estatisticamente que a falta de grampos no decorrer dos séculos desencadearia, por fim, a completa destruição da democracia, do cristianismo e dos escritórios de advocacia, condenando o Império Galáctico a uma idade das trevas de anarquia e barbárie por quatrocentas gerações, além de duas a quinze guerras termonucleares. 
Demais pesquisas prosseguem em andamento.
E o que aprendemos com tudo isso? Absolutamente nada. Boa noite.

atômico factal

A Chácara no Fim do Universo
Minhas Férias com os Caras

Anoitece no fim do universo. Em volta do fogo estão os seis escaramuçadores, teóricos escafandricos, banhados nos deflectos lunares da segunda-feira. O dedilhar das cordas evoca a canção, despertando os espíritos espaciais da grama molhada. Cores invisíveis dançam sobre a fogueira. Anoitece. Ao longe o inominável espreita, atômico factal, silencioso por de trás das cercas, condenado a vagar até o fim da eternidade.
As últimas folhas de papel desaparecem nas labaredas. Os bandeiras se levantam em direção a cabana no topo da escada. Hambúrgueres? Pensavam. Miojo e pipocas.
Amanhã jantamos hambúrgueres.

A criatura virou de costas e retomou sua caminhada pela estrada noturna. Calculou uma inequação ou duas e deixou de existir. O miojo cozinhava na panela. Anoitecia.

a seleção artificial

Uma História sobre os Mosquitos
André J. Torres

Era uma noite quente de primavera, e como qualquer noite quente de primavera os mosquitos conspiravam em mistério.
"MALDIÇÃO! Por que diabos existem os mosquitos?!”, dizia Johnny Boy.
"Está bem, pequeno. Vou contar-lhe uma história sobre os mosquitos", respondeu Uncle Darwin com um pigarreio e uma xícara de chá.

"Há muito tempo atrás havia dois tipos de mosquitos: Os que existiam, e os que não existiam. E assim, como reza a Seleção Natural... – Os olhos de Uncle Darwin pareceram brilhar por um instante ou dois. Continuou – Os mosquitos que existiam eram, naturalmente, melhor adaptados ao ambiente, e portanto se reproduziram e tão logo perpetuaram os genes da existência pelo planeta. Fim”.
“E é por isso, Johnny Boy, que não somos picados por mosquitos que não existem". O velho naturalista apagou as velas e deixou o quarto.

"Eu odeio você, Uncle Darwin", concluiu Johnny Boy em pensamento.
“Eu desejo que você queime no inferno”.

Mais tarde naquela noite o pequeno Johnny teve pesadelos Lamarckistas.