as vacas do Oriente

Uma improvável reação química no refrigerante
por André J. R. Torres.

  O relógio bate doze vezes, indicando que seu programa favorito já vai começar. Você apaga as luzes, ajusta o aparelho de televisão e se posiciona logo diante da tela, sentado no tapete. Não demora muito para surgir uma porta de madeira. Atrás dela está um homem de meia idade bem trajado com o cabelo penteado, o Apresentador, e ele o conduz para sua próxima história.
  Feche os olhos. Imagine um grande pasto verde cheio de vacas, um rebanho completo. Mimosa, Daisy, Bernadete, Filomena e a turma toda. Repare que, ainda que diferentes em seu gosto musical e alinhamento político, todas elas são, essencialmente e quase sempre, da mesma família taxonómica, e isso é muito chato. Lembrem-se que de todos os 7 continentes conhecidos só existem 24 distintas espécies de vacas. Ainda que o Criador tenha se esforçado ao máximo em sua prancheta de desenhos, and he certainly did, a variabilidade genética bovina nunca foi lá essas coisas.

  Imaginem agora uma churrascaria: As mesas com seus saleiros e sua manteiga, as fartas carnes, acompanhadas de queijo ou batata frita, e a conta, por fim. Nessa bela churrascaria hipotética - Onde esta noite o próprio Alfred Hitchcock é seu garçom - nos orgulhamos de oferecer aos nossos queridos clientes uma (g)astronômica variedade de carnes da melhor qualidade, que no entanto, todos sabemos, provém invariavelmente do mesmo velho tipo de vaca, seja ela a Daisy ou a Bessy, estrangeira ou do interior.
  Me passe o creme de alho. Aqui está. Muito obrigado. Não há de quê! "Eu sei que este bife não existe", você presume estar pensando. Mas esta, crianças, não é a Matrix, nem Milliways. Seja bem vindo, sente-se, o prato especial de hoje foi preparado audaciosamente onde homem algum jamais esteve, com os cumprimentos do Chefe, na cozinha inominável da Zona do Anoitecer.

  Estamos bem no meio do jantar quando uma improvável reação química em seu refrigerante, decorrente do decaimento radioativo duma coca-cola subatômica com gelo e limão, subitamente provoca uma pequenina imprevisível bolha, tão diminuta e irrelevante que passou despercebida até mesmo pela Providência divina. Você por algum motivo percebe essa bolha invisível na espuma do copo, esse pequeno ponto fora da curva na estatística não tão infalível do determinismo Maior, e de repente, por acaso, ela te faz pensar.
  Cupim, costela, fraldinha, filé mignon e picanha - e que Senhora picanha. Mas alto lá! E se todos esses diferentes pedaços da vaca, ao contrário de meros cortes de sua totalidade açougueira, fossem espécies independentes de animais? Maminha e alcatra não teriam de dividir o traseiro da Filomena. Não, nada disso. Maminha seria Filomena e alcatra seria uma terceira; Doroty, por exemplo. Bastaria ter a natureza se distraído por um instante durante sua estadia no jardim zoológico do Éden e bada-bing, bada boom: Duas vacas para dois tipos de carne, uma de Alcatra, outra Maminha, e assim por diante.

  Isso mudaria tudo. A Argentina não seria a maior exportadora de Fraldinhas da América. Ao invés disso, quem sabe, os Pampas se especializassem na pecuária de Contra Filés. Nas prateleiras do supermercado encontraríamos o Leite de Chuleta em caixinhas e no espeto, além de Coxão Duro nos sabores integral, desnatado, mal passado ou no ponto, e tantas outras combinações intercambiáveis.
 
Não tardaria, porém, para que a Princesa do destino, tendo se sentido traída pelo inesperado andar da carruagem, armasse sua vingança contra esse mundo de fantasia. E ainda que os sábios previssem que a fúria fatal viria do leste, nunca desconfiariam que ela o faria a cavalo.
  Isso porque a Índia como conhecemos não poderia vir a existir. Shiva, Buda, nenhum deus ou ogiva nuclear seria páreo para o Politeísmo de suas sagradas vacas, e assim o Império Indiano subjugaria as divindades rivais, desencadeando uma guerra santa mundial conhecida como A Cruzada do Curry e sentenciando o Oriente e o resto do Planeta a uma idade das trevas de dez mil anos.

  O Senhor aceita outra bebida? Pergunta Alfred. Sim sim, uma água, por favor, sem gás.
  Que fim teve o mundo dominado por Gengis Curry e sua dinastia de hinduístas veganos? Por que Hitchcock estava trabalhando de garçom? Nos vemos amanhã, crianças, nessa mesma hora, nessa mesma mesa, na Churrascaria do Impossível, além da imaginação.

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