SANGUE E SAL

Psico-história afropunk
André de Jesus

Joelhos ralados de quem começou a andar de patins no final de semana. Mesmo sem jeito era melhor se apressar porque a fila do mercado vai ta longa, e ainda tinha que botar tudo no congelador, e esse tudo precisava gelar até as sete, quando mais ou menos iam chegar. Meninos salgado, meninas doce, e ela as bebidas, como no colégio. O interfone tocou, eles subiram. A quitinete nunca esteve tão cheia. Mai, Juca, Fred e Mônica, que trouxe a Aninha, de seis anos. Google, como abrir uma garrafa sem saca-rolhas? Ninguém vestia mais sapatos, o armário não tinha cabides. Felizmente, sobravam parafusos, da mesa de centro de madeira reciclada que jamais seria montada. Colocaram um LP do Arctic pra tocar. Beberam, beliscaram queijos comprados pela internet. Abriu seu presente: um mimeografo. Deixaram a mesa arrumada, e as 11:49 desligaram o forno e desceram, só pra ver os fogos. Turistas de chinelos, camisetas brancas e oculozinhos de plástico com dois zeros no lugar das lentes, tal qual suas versões holográficas projetadas por smartglasses, embora igualmente bregas. Tentou se lembrar da última vez que viu um arrastão e não conseguiu, o que devia ser algo bom. Sentaram numa mesinha de ferro debaixo das palmeiras entre a areia e o calçadão. A noite era quente, o vento, fresco e salgado. Tirou uma foto pro Twitter. Merda, acabou o 3g. Foi no quiosque pedir a senha do wi-fi, e uma água de coco, por favor. O garoto no balcão tentou dar ideia, ela mostrou a aliança. Porque ainda andava com aquilo? Quando voltou, viu uma revistinha sobre a mesa. "Dragão 2000". Qual é Fred, achou num sebo? Nem, tão relançando. Isso não é nada, disse o Juca, vocês viram a Playboy? Eles vendem revistas em branco, você imprime a edição que quiser em casa. Fred tirou do bolso um dadinho vermelho de vinte lados e botou sobre a revista aberta. Esse não, esse é aquele lá, de sempre. Por um instante do tamanho de uma respiração, os substantivos a sua volta pareceram indistinguíveis daqueles que formavam as frases do seu universo na adolescência. Quis saber quando foi que perdeu o fôlego, e se, mergulhando bem fundo, poderia encontrá-lo de novo. 10, 9, 8, vai ser como se você não tivesse tido eu, mamãe? Ai Aninha, para de besteira, toma o seu suco. 3, Mai, você botou silicone?, 1...

Aconteceu por causa de duas coisas. Primeira, a estagnação secular. Depois que a segunda guerra acabou - e a guerra fria, e a guerra ao terror, e a guerra depois dessas, os supercomputadores, inventados e reinventados unicamente para quebrar mensagens secretas, não estavam mais ocupados com isso, e assim, foram empregados em outras tarefas. Uma delas foi analisar quintilhões de dados dodecaédricos acerca da sociedade, a história e etc., e o resultado, apresentado com a mesma facilidade e indiferença com que uma torradeira apresenta pão torrado, foi de que nós, espécie e civilização, deveríamos atingir em breve algo similar ao que alguns economistas da depressão dos anos trinta chamaram de "estagnação secular". Esse conceito, a princípio, se referia a um possível futuro após a era de ouro do capitalismo desprovido de crescimento econômico, fadado a desabar sobre sua própria fundação. Esse fenômeno vinha, sim, acontecendo (Augustus Gloop se sacia mais rápido do que o Willy Wonka é capaz de inventar novos bens de chocolates). Essa não é nem de longe a pior parte. Além das pessoas tomarem menos coca-cola diet que há dez anos atrás, essas mesmas pessoas estão fazendo menos bebês; e quando nós, tomadores de vanilla coke, batermos as botas, também vamos deixar menos crianças pra tomarem weed coke, e assim por diante, mas só até o resfriamento da produção material e da reprodução sexual fazerem com o homo sapiens o mesmo que o aquecimento global fez com as abelhas.

Essa é a primeira coisa. A segunda é a filosofia africana do tempo. Essa filosofia, como tantas outras, sobreviveu nos terreiros, como quando a avó dela dizia "Candomblé não tem hora, começa quando estiver pronto". Os convidados iam chegando, num horário que é mais ou menos igual. Podiam esperar horas sentados. Não adiantava reclamar, porque algum velho, provavelmente sua avó, repetiria de prontidão "candomblé não tem hora, minha criança". Nunca fez sentido pra ela, porque nasceu e cresceu em um mundo incolor, terraplanado à imagem e semelhança da racionalidade maximizadora do lucro. Não conheceu a lógica baseada na emoção, intuição e natureza segundo a qual o tempo continuava sendo uma eterna repetição de tudo, ciclicamente, como na época dos ancestrais, muito antes de palavras brancas como "futuro" serem inventadas e marcadas com ferro em brasa sobre nossas mães. Nos arrancaram de seus braços queimados, sem saber, porém, que dentro do coração está enterrado, escondido, um punhado de terra desse lugar antigo em que éramos Reis e Rainhas, e fazíamos quanto tempo quiséssemos. 

Sentada num McCafé, basicamente pelo wi-fi, ela pensou "é isso". "Vai ser como se cada tripulante e passageiro à bordo do Titanic, tendo o inaufragável navio vencido o iceberg, tivesse colocado a mão no bolso ou olhado para a parede e percebido, com espanto, que os relógios estavam todos congelados". Fenômeno semelhante se sucedeu com os militares, engenheiros e engravatados que estavam no Pentágono durante os poucos minutos necessários para neutralizar completamente o ataque cibernético aos Estados Unidos da América, no último vinte e seis de fevereiro. No entanto, ao olharem, eventualmente, cada qual para o seu respectivo Rolex, não puderam deixar de notar que os pequenos algarismos do calendário marcavam a data de 02/26/1885. What the fuck? Os demais centros de inteligência do primeiro mundo, igualmente convencidos de sua impenetrabilidade, receberam o mesmo recado. Ao fim das incontáveis e intermináveis conferências das Nações Unidas, uma segunda versão do vírus foi oficialmente disseminada por todos os satélites em órbita, transmitidos via internet, telefone e am-fm. O Tratado conferia a ONU o poder deliberativo-representativo de determinar os anos vindouros, conforme a agenda mundial de decrescimento anti-estagnação. 1989, 1970... com sorte, em pouco mais de uma década poderiam replicar os anos 50 e o baby-boom de natalidade, e, em duas, uma nova era de ouro. A contraparte do acordo, assinada por um hacker intangivelmente anônimo, reservava para si o conhecimento e a autoria do inexplicável código atrasador universal. Seja como for, códigos e linguagens são suficientemente a mesma coisa, e ninguém além dela conseguiu traduzir aquela língua morta que não estava escrita em lugar nenhum.

Pularam sete ondas, os seis. Riram de fazer xixi na calça. Quando uma onda um pouco maior deu um caldo nela ela não perdeu o fôlego; respirou fundo. No fim do feriado o sistema estaria atualizado, apropriando-se mecanicamente de cada segundo, cada gota de sangue e suor que não produzia e não lhe pertencia. Amanhã, enquanto as sobras estivessem esquentando no microondas, e o pessoal ouvindo fitas k7 do Spotify em walkman's com o emblema colorido da maçã, e talvez jogando Banco Imobiliário nos colchões e sacos de dormir na sala, ela estaria na rede, desenhando, esperando o joelho cicatrizar.

Praia Grande,
Primeiro de janeiro de 2001.

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